COMO AS EPIDEMIAS DA HISTÓRIA MOLDARAM O DESIGN DAS CASAS ATUAIS

Por Maiara Faria
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Bom, mais tempo em casa resulta em mais tempo observando o que não se percebia antes. E aí começamos a nos questionar se existe alguma coisa que podemos fazer para nos livrar do vírus do momento, além da limpeza e do isolamento de praxe.

O design das nossas casas, em grande parte, surgiu devido o acontecimento de outras grandes epidemias, como a tuberculose, gripe de 1918, dentre outras. A minha querida professora e arquiteta Juliana Suzuki explica que a história do mobiliário dos últimos 200 anos tem relação direta com algumas medidas de saúde, iniciadas na Europa, no fim do século 19 – época em que as descobertas sobre como as transmissões das doenças aconteciam.

A concepção inicial era de que a transmissão acontecia pelo ar. Por isso as pessoas acabaram se deslocando para os sítios, resultando em cidades quase fantasmas, porque elas tinham a “falsa” impressão de que “bons ares” dos espaços rurais poderiam ser a cura. Foi assim com a epidemia da cólera, por ex, quando a Inglaterra começou a debater sobre a verdadeira origem das doenças.

Medidas básicas como lavar as mãos e limpar as casas não eram costume das pessoas. Somente com as descobertas das bactérias e com o avanço científico é que cuidados sanitários foram repassados para a sociedade, mas não eram assimilados de prontidão.

As primeiras medidas eram governamentais, portanto, obrigatórias. Sim, foram necessárias leis para que as pessoas limpassem a própria casa, e, pasmem, elas não entendiam o porquê daquilo! Com a comprovação efetiva destas práticas e através da redução de contágio, acabou por virar rotina, mas levou-se tempo.

A percepção do viés urbano, público, evoluiu das cidades para dentro de casa, no âmbito da arquitetura e decoração. Por exemplo, as alcovas, ambientes sem qualquer abertura para janelas, eram comuns. Com o entendimento de que era preciso ventilação natural em espaços fechados, as janelas passaram a ser indispensáveis para impedir a propagação das doenças.

ARMÁRIOS

Até o início do séc. XX, vários móveis eram utilizados para armazenagem, como cômodas, gabinetes, guarda-roupas. Eles eram pesados para arrastar e fazer a limpeza. Concentrar tudo isso em apenas 1 móvel e eliminar os vários independentes passou a ser uma prática inteligente, necessária e mais prática.

Le Corbusier já falava sobre a importância da higiene e limpeza no design das residências ao defender o minimalismo, por ex.

AZULEJOS NAS COZINHAS

Os branquinhos, típicos de hospitais, se popularizaram a partir do século 19 por passarem a sensação de limpeza e ambientes livres de bactérias. Com o entendimento de como as doenças se propagavam, as pessoas começaram a ter ciência de que em paredes claras, lisas, se poderia ver a sujeira, e, assim, manter a casa sempre limpa.

LAVABOS

A criação de um banheiro específico para as visitas deu-se inicialmente para que elas não compartilhassem do mesmo banheiro da família. Passou a ser conveniente tê-lo logo na entrada das casas.

HOJE, COM O COVID-19 E NO FUTURO

Com certeza as medidas sanitárias serão pauta para um olhar arquitetônico e de design, na verdade, já o são. Talvez lavatórios ao lado da porta principal, gabinetes para deixar e trocar os sapatos, roupas até. Ou até o layout das casas pode ser influenciado a ponto de as entradas direcionarem rapidamente ao lavabo, antes de entrar na casa. Edifícios públicos podem receber uma área de lavatório logo na entrada, antes mesmo dos elevadores, inclusive pode ser uma obrigatoriedade antes de se fazer o cadastro ou bipar o teu crachá/ponto eletrônico...a tecnologia pode entrar com a leitura da temperatura das pessoas, ou uma espécie de alarme caso você não tenha lavado as suas mãos...enfim, pode parecer meio maluco, mas tendemos a acreditar que estamos sempre em evolução. E, assim como a ciência está em compasso com o que acontece no mundo, nós, arquitetos, também devemos estar. Afinal, nossas cidades e casas dependem do nosso olhar técnico para desenvolvermos os melhores e mais salubres espaços para habitarmos. Isso é qualidade de vida, bem-estar.